A BORBOLETA PRETA
A borboleta passando pela janela entrou num quarto onde havia um homem.
_ Que sublime ser!
Não é mesmo borboleta?
Pode nos deixar feliz, infeliz e até nos tirar a vida.
Mas é belo.
E encantamos com ele, você e eu...
Talvez não tivéssemos o mesmo destino...Ou parecido...
Eu posso sentir a alegria que você sentiu ao esvoaçar em torno do homem que estava no quarto, posso ver seus olhos a analisá-lo, admirando e examinando cada parte de seu corpo.
_Viu aquela pinta nas costas dele? Chamou-me atenção porque não vi nenhuma além daquela.
Você gostou dos olhos?
_Lindos olhos pretos! São olhos de tigres brilhando na escuridão. Por trás do brilho uma história de caça, de conquista e sobrevivência.
Por aprender a lutar pela sobrevivência se tornam homens frios incapazes de responder a um gesto de carinho. E tu borboleta tão meiga a ponto de se aproximar e dispor de todo a sua história diante do homem, num simples beijo.
Não borboleta, você errou...
Ao adquirir inteligência muitos petrificam o coração, e o que você fez, para ele, foi apenas incomodá-lo. Você é apenas uma simples borboleta “negra como noite”. Você não tem brilho e beleza feito às outras.
Não temos, você e eu.
Observe de longe a inteligência de um homem antes de se aproximar... Pode ser que a sua visão de mundo seja tão grande que ele a reduz numa vida inútil. Atribuir valores é uma forte característica humana. Andam em bandos segundo seus valores, mas mudam de bando conforme mudam de valores.
Seu erro lhe custou à vida, não pelo seu gesto de amor, mas pela sua insistência de permanecer no quarto. Não viu que sua presença o incomodava? Não notou a fisionomia do homem que não tinha nada a lhe oferecer, apenas te expulsar?
_Pobre borboleta!
Que motivo terias tu de permanecer ali, senão amor.
Quantas outras borboletas cegas de amores, sofrendo, sem pernas, de asas quebradas ou sem asas, permanecem até a morte?
Não, eu não escolhi o mesmo destino que você, minha insistência não pode custar-me a vida.
Não serei teimosa...
Os homens são seres úteis, agradáveis e controladores.
Controlar é a aflição do século XXI, pessoas, informações, máquinas, objetos, comida, poder, sentimentos, desejos...
De todos o que não se controla por muito tempo é o desejo. Podem sufocá-los, mas eles sempre estarão vivos, grudados em seu ser como um parasita e aos poucos definem a pessoa que você é. Foi o que te matou, morreu pelo desejo de permanecer.
_Eu te entendo pequeno ser.
Era outro mundo, com brilho, vida e inteligência.
A inteligência foi o que mais te prendeu ali.
Eu sei que o seu desejo de permanecer era para se deleitar na inteligência do homem.
Era para mergulhar no subconsciente, descobrindo seu medo e segredos, decodificando o seu ser. Essa zona de aproximação que você queria alcançar é permitida apenas a alguém que lhe é dado uma senha chamada Amor. E você não tinha a senha...
Morreu porque não tinha a reciprocidade, não foi compreendida, não foi amada...
Andréia in Memória Póstumas de Brás Cubas - Capítulo - XXI A BORBOLETA PRETA.

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