segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

VIVA O NATAL


Hoje em nossa cultura é normal presentear quem está fazendo anos, canta-se o famoso parabéns pra você, com festas, bolos e presentes. E a pessoa homenageada se sente no centro do universo, sendo prestigiada por amigos e parentes.
 Mas no natal não é assim. Ninguém vende presentes para Jesus, ninguém compra presentes para agradar a Jesus. Até porque os presentes que ele desejaria não tem preço, não estão no comércio e vão contra a vaidade do homem.
Em muitos lugares não se lembram do aniversariante, ele não é o centro das atenções nesse dia, mas o papai Noel sim, este é que distribui presentes que está disponível na prateleira do supermercado e é o que eu quero. Porque é mais fácil receber, sendo eu a pessoa especial, do que se doar, sendo outro o centro das comemorações.
Hoje essa fantasia de que o natal é apenas presente, bebida, comida e alegria é transmitida até mesmo nas escolas para os pequenos, nas famosas “musiquinhas e lembrancinhas de natal”. Que tal aquela que deixa o sapatinho na janela e o papai Noel deixa um presente? Perfeita não? Já desde a infância vamos construindo na mente dos pequenos o natal do comércio, de compra e venda... Mas, e quem não ganha presente no natal?  São os pobres e infelizes, são os solitários e esquecidos, são os mortos-vivos.
Os três Reis Magos ofertaram presentes a Jesus, não houve uma troca de presentes, houve uma oferta, uma doação, a recompensa não pode ser materializada, apenas sentida. Aquela recompensa que transforma o ser humano.
Hoje vivemos além do humanismo, a supervalorização do “eu”, da estética e do conhecimento, que tem plena consciência de que o natal é o nascimento de Jesus, mas de um Jesus que está distante, e que o papai Noel e as pessoas estão mais próximos. Mas até que ponto distribuir presentes é um ato de amor?


domingo, 16 de dezembro de 2012

A ÁGUA E SEUS MISTÉRIOS


A água é um dos elementos essenciais à vida, além de possuir uma beleza exuberante é capaz de fazer fluir sensações, alegria, prazer...
Toda criança é atraída por água, querem pegar, beber, se molhar. Vivem com a água uma relação de velha amizade. Frio ou calor pouco importa elas querem é brincar. Qual o bebê que nunca enfiou a mão num copo de água? Qual a criança que nunca brincou na chuva? Seja na rua ou no fundo do quintal a sensação é de muita alegria.
Por que a água exibe tamanho fascínio sobre as crianças? Se bem que muitos adultos ainda vivem esse tempo de fascínio pela água. É uma das minhas diversões favoritas, pena que é tão cara tanta a água quanto o tempo.
Se a água por si só é o belo, imagina quando o assunto é brincar na água! Acrescentei a água outro belo do universo da criança. Água + brincar. E se acrescentar uma necessidade da nossa cultura, o banho, aí que tudo fica mais divertido. A criança pequena não imagina que é um momento de higiene, o normal é deixa-la à vontade. Quando se deixa uma criança a vontade o brincar flui, porque o universo imaginário é a morada da criança, principalmente quando elas imitam o mundo do adulto, cheio de objetos considerados atraentes como: carros, celulares, sapatos, maquiagens, computadores...
Quando se é pequeno, tudo é bem maior que você, até mesmo as dificuldades. Quando se é criança imitam os adultos imaginando o maravilhoso mundo de gente grande onde tudo resolvem, tudo sabem, tudo fazem.
Quando se é adulto recordam a infância por acreditar que foi um mundo maravilhoso, onde a simplicidade de uma poça de água se transforma em um parque de diversões.
Mas será que toda a criança brinca? Será que os pais sabem fazer um barquinho de papel? Será que todas as professoras de educação infantil já fizeram um barquinho de papel? Será que eles quando criança soltaram barquinhos na chuva? Não sei... Fico pensando... Quem confunde minhoca com cobra pode achar uma grande besteira tudo isso...



sábado, 15 de dezembro de 2012

"NADA QUE INTERESSA SE PODE GUARDAR"


Hoje quero dividir com todos,
o que seria de apenas um:
A alegria.

Não a minha,
 porque sou feita de egoísmo,
por dividir entristeço-me.

Hoje desejo em dobro
o verde,
o vermelho
e o branco...

Desejo todas as cores da vida,
dançando em harmonia ao dia de hoje,
 celebrando o símbolo da alegria:
O sorriso.

Hoje, com mais intensidade,
e para não incomodar a alegria,
 desejaria escrever uma única palavra.

Mas o dia é longo e merece
versos,
músicas,
danças,
luzes,
risos
e fantasias...

Hoje não é dia
para o silêncio,
sono,
cansaço,
tristeza...

Hoje é dia para o
espelho,
flores,
movimentos,
brilho,
 barulho,
abraços
 e beijos,
se puder.

"Se não puder esqueça,
de algum jeito vai passar."


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

'Ao vento

Passastes pela taça de vinho,
Perdeu o seu caminho.
Quebrou o vidro da curiosidade,
Deixou-a nua, crua, nenhuma verdade.
Cavalgou no cavalo, assustado, tremeu, correu.
Saltou no abismo e de lá renasceu...'


domingo, 9 de dezembro de 2012


ONDE ESTÁ DEUS?

Deus não se encontra nas palavras bonitas ditas ou escritas em papéis. Deus está em nós, nos nossos atos de cada dia. Como posso dizer que conheço Deus, se não reconheço nem mesmo o meu próximo. Como posso dizer que somos irmãos se eu não estendo a minha mão para você? Conhecer Deus é mais que uma responsabilidade, mais que uma obrigação, pois, por conhecer a verdade tenho o dever de fazer o que é certo. Mas nem sempre fazer o que é certo, significa fazer o que é bom para mim. Esse tal certo exige um pouco ou muito esforço de minha parte em relação ao outro. E até que ponto eu penso no outro como um ser que tropeça nos mesmos  erros que eu ou até mesmo em outros problemas da vida humana?
A paciência é quem determina muitos desses caminhos de “ajudar ao próximo”. Confesso que não sou paciente, não fui tão paciente quanto pensava ser, a paciência me fugiu quando necessitei dela.
Mas o ser humano totalmente afetivo e com sede de vida busca a paciência em outros corações. E muitos que pensam conhecer Deus e os seus intercessores são incapaz de se colocar no lugar do outro, são adultos com visão egocêntrica, com medo de sofrer preferem não sair da sua zona de conforto. Não digo resolver os problemas sociais. Estes não. Estes ficam por conta da Educação. Refiro-me às pequenas soluções do dia-a-dia que faz toda a diferença para quem aguarda uma nova direção. Se eu não consigo resolver os pequenos detalhes como é que serei capaz de resolver os maiores?
O certo ou o errado não se sabe. É por isso que a mente humana tropeça nos pequenos detalhes e nunca descobrirão os maiores, a vida é sempre um mistério. Eu não vejo Deus nas pessoas, eu não vejo Deus em mim. A solução dos grandes ou pequenos “erros” deixamos por conta da lei, por conta da democracia. E Deus se transfere de nós para os papéis, para os programas de TV, para as páginas da internet. Torna-se mais um produto do capitalismo. E viva a ciências que afunda cada vez mais a humanidade!




domingo, 2 de dezembro de 2012


 DE VOLTA

Sempre de volta à casa...
Saudade das paredes intocáveis, do chão flutuante,
Do silêncio das imagens em movimento...
É meu escudo, minha proteção, minha paz,
Minha memória...
Sinto-me viva!
Sinto-me autêntica.
Todos os humanos estão lá fora,
E eu, no meu canto de Cinderela.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

Why Rose?


Esta é a belíssima Ruana.
_Ah! mas Ruana não é nome de Rosa. É um nome qualquer, e ainda feio.
_Não não. Aí que você se engana. Ruana é nome de princesa.
E para provar mais um de meus processos mentais que ainda me levarão a loucura, está aí à bela princesa verde e Rosa.
Ela faz parte de um ciclo que se abriu há alguns anos, mas não se fechou.
Cheguei à conclusão que os ciclos não se fecham no mundo interior, eles continuam a existir nas profundezas de minha mente.
Fecham-se apenas com a Morte.
Como não morri, todos os ciclos tiveram continuidade, desde a minha infância, desde que se constituiu a minha memória. É ela quem dá continuidade nos ciclos, nas cavernas misteriosas da minha mente.
Cada clique uma memória, cada memória um acontecimento, cada acontecimento um mundo, que de acordo com a minha vivência se renova aos poucos.
Como prova da renovação do ciclo do Pequeno Príncipe e do ciclo do Bruxinho, eu plantei e cultivo a pequena Ruana.
"Agora" é um ciclo só meu, mas visível ao mundo exterior.


terça-feira, 5 de junho de 2012

As minhas decepções


O tamanho da minha decepção vai depender do tamanho da minha fé.
A minha fé, na vida, nas pessoas, e em tudo que acredito, é grande.
Pode achar que conhece-me...
mas nem mesmo eu conheço os poderes da minha mente,
o que acredito hoje, pode não ser o que acredito amanhã.
Logo, as minhas decepções são mutáveis.
As alegrias, o choro, o início de um ciclo,
o rompimento de um outro ciclo com o mundo exterior,
desenham a escada da decepção.
E eu decido em que degrau quero ficar,
Eu decido em que acreditar,
As decepções são minhas.



domingo, 27 de maio de 2012

Amargo?
Doce?
Prejudicial?
Estimulante?
Vicioso?


Café ou você?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Encanta-me este mundo diversificado.


Encantam-me as cores,
 o amarelo do girassol,
o vermelho da rosa,
o verde das árvores.

Encantam-me as diversas formas, curvas, linhas, espaços, dimensões.

Encantam-me as pessoas, porque, são Artes em movimentos,
o sentimento é  Arte,
a aprendizagem é Arte,
a ciências é Arte,
o pensamento é Arte,
o mundo é Arte!

A alma que conhecemos, não existe.
O que existe é a Arte dentro do humano.
Lá no cantinho, longe do que é concreto, entre o corpo e o sentir
encontra-se a expressão do homem.
Do tão privilegiado homem!
Homem composto de Artes.

Por meio da Arte penso, imagino, sinto, encanto, construo e reconstruo.

domingo, 13 de maio de 2012

Você pensa que me engana?


Este Pedrinho que aqui navega tem um barquinho de papel.
Rema, rema, rema e só afunda.
Glorioso Napoleão filosófico, de óculos, monta um cavalo de pau.
Não galopa, não galopa, não galopa, anda em círculos.
Pois bem fez Nicolau, o que é quente aquece a todos e permanece no meio.
Perdoe-me pela observação Juninho. Mas onde estão as formigas? Os mosquitos? Pode ser paulista ou nordestino o que importa é ser brasileiro.
De todos os Einsteins de Formol, ainda sim eu prefiro a graça do original.
Aos Zeus de hoje interessa “o ato” da multiplicação.
A língua, mole ou dura, Freud tem explicação?
Ainda pensa que me engana?
Não me engana não.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Tela de Almeida Junior


Moça - s/d




quinta-feira, 15 de março de 2012

APRENDER NÃO DÓI

Certo dia, observei uma criança tomar injeção.
A enfermeira tentou negociar.
_ Mas vai ser rápido, prometo que não vai doer, você não vai sentir nada. Depois ainda eu vou te dar esse adesivo de bichinho, você não gosta de bichinhos?
A criança quase chorando respondeu:
_ Gosto, mas não quero.
_ Não, não vai espera.
A enfermeira já sem paciência olha pra mãe e diz:
_ A senhora vai ter que me ajudar.
A mãe entendeu o recado.
Pegou a criança a força, segurou e só se ouvia choro e gritos.
...
A mãe agradeceu a enfermeira e saiu com a criança ainda chorando.
Pensei... método doido! Mas é preciso.
Mas e na escola que o professor faz uso de métodos prazerosos
e não tem, no momento, ajuda da mãe. Mas precisa aplicar o conteúdo.
E algumas vezes o que se tem é o carro riscado, pais revoltados, a vida interrompida...
E o obrigado professor se torna cada vez mais raro.

 
(PS. Não estou defendendo a violência no contexto escolar, a reflexão é outra).

domingo, 29 de janeiro de 2012

... Havia uma sombra, grande, negra, tinha cheiro, cor e som da tranqüilidade.
Ao passar senti o perfume de flores comestíveis a minha alma, cheiro do alimento que nutri a imaginação.
O vento de leve balançava as folhas.
Feche os olhos.
Ouve?
São as ondas do mar.
É o som da sinapse, da lembrança...
Sente-se...
Sinto o vento lamber a minha pele, sussurrar-me segredos,
Histórias, de um tempo em que eu mesmo fui a protagonista.
O sol fazia questão de desenhar a negra nuvem no chão.
Onde tive a curiosidade de deixar uma marca.
Contornei a sombra, ansiosa pela contagem do tempo,
passa-me os segundos.
Se eu não atravessar a linha, não terei sobre mim o eclipse,
e o sol pode beliscar-me a pele.
Sigo a sombra, porque dela vem sensações novas.
Vem um caminho fresco e lento.
Sigo...
Sigo a sombra.
Até que surge a noite...
Não fique triste...
as marcas se apagam ao poucos...
Apego-me ao vento e sigo a caminhada.
Tudo é sombra, tudo é paz.


...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

BONECA DE PANO III

No sombrio da noite a boneca pergunta as rosas.
O que serão delas ao final, tão belas e perfumadas, sendo adoradas pelo jardineiro.
Mas as rosas...
Rosas são superiores,
Não falam, despertam desejos.
E por momentos a boneca teve inveja das rosas.
Deu pra maldizer de seus espinhos.
Espinhos sangram...
Mas por que uma boneca estaria preocupada com isso?
Sangue é vida e vida é o que ela não tem.
(A dor se manifesta no que pulsa)
Talvez um dia pensasse que teria.
Em outro lugar, em outro momento, na caixa de brinquedo,
Quem sabe? Se não fosse de pano...
O tempo se foi.
Não há rosas, nem jardineiro, a boneca também se foi.
Cumpre então o seu destino,
se decompôs em meio ao lixo que hoje se encontra.
Quem se lembra?
...
Era apenas um brinquedo substituível.
O tempo cura ou o tempo mata?


...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sem a noção de tempo você não teria sentido!


Sua vida não teria sentido,
nada "iria ser",
ou nada "já teria sido feito".


Simplesmente você estaria parada.
Não precisaria correr atrás de nada.
Mas você tem uma meta à cumprir!
Nem que seja básica,
pois sabe que seu tempo está passando,
e que você não é eterno!
No infinito, isento de tempo,
você não precisaria nem do básico,
porque não existiria morte.


A morte te faz ter noção de tempo!
A morte das coisas nos dá uma noção de tempo.
Logo você conclui que nada é eterno e que tudo tem um
fim.


O tempo existe pra cada ser,
inanimado, ou animado,
pois ambos têm um fim.
Logo vemos a mortalidade da vida,
e daí surge a consciência de tempo:
fui, sou, serei e fim!
"Morte"!


O tempo é o único eterno!
Suas criaturas se prendem nele ao nascer
e se desprendem ao morrer!
Mas ele permanece,
pra que tudo comece outra vez,
pra outra geração de seres inanimados e animados.


O tempo é a consciência de vida e morte.
Temos consciência de vida, por causa da morte,
pois percebemos a distinção das duas, que é:
aqui estou e logo desapareço!
O desaparecer é a morte
e a consciência de estar aqui é a vida.


O espaço é isso tudo que está aqui,
é a própria matéria.
Mas o espaço morre!
O espaço se prende no tempo e depois se desprende.
A mortalidade do espaço nos faz ter consciência da morte.
O espaço é mutável, diferentemente do tempo.
O tempo é o mesmo eternamente.
Usamos os segundos para contá-lo, é uma maneira.
Se a consciência dos segundos desaparecesse,
a consciência de tempo permaneceria a mesma.


Os seres continuariam aparecendo e desaparecendo eternamente.
O tempo é o mesmo em que Jesus foi crucificado,
o mesmo que te conheci,
o mesmo que existirá sempre.
A contagem que fazemos do tempo, por segundos,
e a contagem dos fatos que ocorrem no tempo é que mudam, que avançam.


Mas o tempo permanece.




Autor: Filipe




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domingo, 1 de janeiro de 2012

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928


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