domingo, 28 de julho de 2013

DIA DA EMÍLIA



EMÍLIA - Hoje eu declaro dia nacional das bonecas de pano. Mas não pode ser qualquer boneca, tem que ser uma assim, igual a mim.

NARIZINHO – Como assim igual a você?

EMÍLIA – Uma boneca que fala, mas não com falinha, com fala de verdade.

NARIZINHO – Então vai ser o seu dia. Não conheço outra boneca caipira tagarela.

EMÍLIA – Caipira não! De pano, de pano ordinário sim senhora, mas não esqueça que sou uma condessa de três estrelas ***. E por falar em caipira este é o seu dia. Não é Narizinho?

Pedrinho deu uma boa gargalhada.

 NARIZINHO – É eu sou caipira com muito orgulho senhora condessa e senhor da gargalhada. Os caipiras são bem mais conscientes que os da cidade. E imagine se não somos mais conscientes do que os de pano! Mas isso de comemorar é coisa dos urbanos.

EMÍLIA – zurbanos?

NARIZINHO – Urbanos, sua besta feita de macela.

PEDRINHO – Os caipiras podem até ser conscientes, mas é da cidade que vem o desenvolvimento, a cultura. Isso de comemorar os dias faz parte da nossa vida, de nossa cultura, do nosso afeto para com o outro. No dia das mães, por exemplo, mamãe fica muito feliz com o presente.

EMÍLIA – Aí é que não! O dia do caipira é mais importante. Eu por exemplo não tenho mãe. Tia Nastácia quem me fez, mas quem faz não é mãe é fazedera. E como não tem o dia das fazederas não comemoro nada. Mas agora vou comemorar o dia do caipira, quero ser chique como o povo da cidade. Onde se viu uma condessa sem cultura?! Você deveria fazer o mesmo Narizinho o príncipe encantado ficaria muito feliz em ter no reino das águas claras uma princesa caipira culta.

NARIZINHO – Emília, a mãe é mais importante que o caipira. Não comemoro porque também não tenho. Mas esses aí da cidade que se acham tão cultos, se esquecem dos dias das mães ou dos pais com desculpinhas e tal, e comemoram o nosso dia, quero dizer o dia do caipira. Mas eles gostam mesmo é da bagunça que fazem, porque de caipira eles não têm nada, nada mesmo. Nem os trajes são caipiras. As moças vestem uns vestidos curtos e apertados que os caipiras ficam mais caipiras ainda. E elas ficam com cara de Barbie da roça. Se isso for cultura Pedrinho. É uma cultura vazia, tão vazia quanto à perna de Emília no dia do assalto das macelas de ouro. Nem o dia da mãe, nem o dia do caipira. Cá na roça é muito trabalho e pouca prosa.

PEDRINHO – Pois eu vou continuar a comemorar o dia das mães, o dia dos pais, o dia do caipira e o dia das bonecas de pano. Que dia vai ser Emília?

EMÍLIA – Hoje. Dia 1° de abril. Quero que todas as crianças estejam vestidas de Emília, e que comprem muitas Emílias e deem Emílias de presente. Se alguém, assim de longe, de bem  longe, lembrar-se do Rabicó, pode compra-lo também.




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