EMÍLIA
- Hoje eu declaro dia nacional das bonecas de pano. Mas não pode ser qualquer
boneca, tem que ser uma assim, igual a mim.
NARIZINHO
– Como assim igual a você?
EMÍLIA
– Uma boneca que fala, mas não com falinha, com fala de verdade.
NARIZINHO
– Então vai ser o seu dia. Não conheço outra boneca caipira tagarela.
EMÍLIA
– Caipira não! De pano, de pano ordinário sim senhora, mas não esqueça que sou
uma condessa de três estrelas ***. E por falar em caipira este é o seu dia. Não
é Narizinho?
Pedrinho
deu uma boa gargalhada.
NARIZINHO – É eu sou caipira com muito orgulho
senhora condessa e senhor da gargalhada. Os caipiras são bem mais conscientes
que os da cidade. E imagine se não somos mais conscientes do que os de pano! Mas
isso de comemorar é coisa dos urbanos.
EMÍLIA
– zurbanos?
NARIZINHO
– Urbanos, sua besta feita de macela.
PEDRINHO
– Os caipiras podem até ser conscientes, mas é da cidade que vem o
desenvolvimento, a cultura. Isso de comemorar os dias faz parte da nossa vida,
de nossa cultura, do nosso afeto para com o outro. No dia das mães, por
exemplo, mamãe fica muito feliz com o presente.
EMÍLIA
– Aí é que não! O dia do caipira é mais importante. Eu por exemplo não tenho
mãe. Tia Nastácia quem me fez, mas quem faz não é mãe é fazedera. E como não
tem o dia das fazederas não comemoro nada. Mas agora vou comemorar o dia do
caipira, quero ser chique como o povo da cidade. Onde se viu uma condessa sem
cultura?! Você deveria fazer o mesmo Narizinho o príncipe encantado ficaria
muito feliz em ter no reino das águas claras uma princesa caipira culta.
NARIZINHO
– Emília, a mãe é mais importante que o caipira. Não comemoro porque também não
tenho. Mas esses aí da cidade que se acham tão cultos, se esquecem dos dias das
mães ou dos pais com desculpinhas e tal, e comemoram o nosso dia, quero dizer o
dia do caipira. Mas eles gostam mesmo é da bagunça que fazem, porque de caipira
eles não têm nada, nada mesmo. Nem os trajes são caipiras. As moças vestem uns vestidos
curtos e apertados que os caipiras ficam mais caipiras ainda. E elas ficam com
cara de Barbie da roça. Se isso for cultura Pedrinho. É uma cultura vazia, tão
vazia quanto à perna de Emília no dia do assalto das macelas de ouro. Nem o dia
da mãe, nem o dia do caipira. Cá na roça é muito trabalho e pouca prosa.
PEDRINHO
– Pois eu vou continuar a comemorar o dia das mães, o dia dos pais, o dia do caipira
e o dia das bonecas de pano. Que dia vai ser Emília?
EMÍLIA
– Hoje. Dia 1° de abril. Quero que todas as crianças estejam vestidas de
Emília, e que comprem muitas Emílias e deem Emílias de presente. Se alguém,
assim de longe, de bem longe, lembrar-se do Rabicó, pode compra-lo também.
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