sexta-feira, 22 de julho de 2011

Acorda! Acorda! Acorda!

Só dorme quem não tem o que perder
E nem pressa para viver.
Acorda!
O sono é raro - caro.
Acorda!
A chuva é vênus, e o vento é de sagitário.
Acorda!
Que neste momento só dorme quem tem cadeira,
Não quem precisa de uma beira;
Na selva quem tem cadeira é rei.
Acorda!
O leão finge está dormindo,
Na verdade ele te espera faminto.

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terça-feira, 19 de julho de 2011

SÓ PERMANECE O QUE ENRAÍZA


Quando  era criança gostava de ver as mangas nos galhos, quanto mais maduras, mais no alto, mais belas eram. Não ousava buscá-las, a menos que eu tivesse asas. Desejei por muitas estações de mangas o par de asas.

Quando me balançava, sentia a velocidade do vento, o chão sumia, meu cabelo se despenteava e um frio na barriga anunciava que eu estava voando. Fechava os olhos e sentia-me como um pássaro. Sem medo, sem noção do tempo. Nunca ousei a soltar das mãos, mas imaginava que se eu voasse assim poderia pegar as mangas, poderia chegar às estrelas e trazê-las a meu pai, que todas as tarde deitado à calçada esperava o nascer da primeira estrela. Chamava-me para que eu a procurasse. Com meu olhar de criança, perdido na imensidão do céu ainda claro eu procurava por um brilho, quanto mais eu demorava, mais era a sua alegria. Era como se ele a possuísse e eu não.

Ainda Hoje tenho o costume de admirar as mangas, de olhar as estrelas, de observar o céu. Agora mesmo olhando pela janela vi um céu todo em casquinhas feito solo seco do sertão. Encanta-me as variações das nuvens, o céu é tão mutante quanto os desejos humano!


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segunda-feira, 18 de julho de 2011

domingo, 17 de julho de 2011

O CICLO

Sinto-me num exílio,
não, mais que isso!
Uma comparação grotesca.
Sinto-me como os retirantes,
de Graciliano Ramos
no poema de João Cabral,
Caminhando ao redor do sol
com vinte palavras.

Com que eu falo:
Com vinte linhas de um poema.
Meu sol avinagrado,
Que queima, que corrói,
Que abre as feridas do passado.

Que me alimenta e que me faz sentir fome,
O mesmo sol que seca faz brotar.

Do que eu falo:
Do meu reflexo contido em cada linha,
Das palavras amordaçadas, sussurradas.
Do que corta, mas não é lamina,
Todo o corpo que me inspira.

Por quem eu falo:
Pela emoção de quem viaja nos versos,
Pela angustia de quem almeja o fim,
Pela saudade do que não existe.
Mas, que eu possuo.

Para quem eu falo:
Para o mesmo corpo partido, descrito.
Que carrega o coração;
Que vê, toca, ouve, sente
E caminha...



Ps: (Por que a vida nos inspira)

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sábado, 16 de julho de 2011

À noite

O vinho é o fio:
Do concreto ao abstrato.
Deita na taça como uma mulher a cama,
Na cor dos lábios
Que o espera por um cálice,
Que espera por um beijo quente.
No escuro, no mistério,
Na taça transparente e delicada
Que o recebe e que sente.

O vinho é O começo de um lado:
Dos segredos, dos devaneios, da insanidade,
Do mistério, do completo, do sonhado.
É o espelho de desejos e de perguntas,
É a desculpa na ausência de palavras;
Perdidas, achadas, esperadas, cortadas.
O caminho longo da fala da pupila,
Do momento aguardado, provocado.
Na sintonia invejável, na sintonia disfarçada -
No sangue que dá vida ao outro lado.

O vinho é O começo do outro lado:
Das respostas, da inocência, do aclamado,
Da busca, do silêncio e do falado.
É o cálice da quimera, do esquecido.
É o gosto do alcançado, assumido,
Presenteado e do déjà vu mortalizado.
O caminho curto dos desejos do corpo;
Do sorriso oculto, do sorriso imaginado -
Na veia que quem anseia pela noite.
Na noite, do vinho, que dá vida ao outro lado.

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Lentamente sai,
não ouvistes
o barulho dos meus passos.
Não ouvistes,
sei que não ouvistes
as batidas do meu coração.

Aos poucos,
no ritmo do relógio
tudo volta ao que era antes.
Antes com sabor do agora,
do agora daquela hora
que não volta mais.

Não ouvistes,
sei que não ouvistes
as batidas do meu relógio;
partido,
dividido,
enumerado,
contando o tempo...

E agora quebrado
ainda ouço a contagem dos segundos;
demorados,
cansativos.
Como se o ponteiro pudesse voltar...

Tenho em mim um marcador.
É preciso silenciá-lo.
Relógio quebrado não pulsa,
se pulsa
é porque ainda lembra do tempo.

O tempo
do ritmo
dos meus passos,
que não ouvistes.

...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Água Viva


Eu conheço bem a fonte
Que desce aquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida
O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Ê ta" fonte mais estranha
Que desce pela montanha
Ainda que seja de noite
Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite
Sei que são caudalosas as torrentes
Que regam os céus, infernos, regam gentes
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite
Assim como todas as portas são diferentes
aparentemente todos os caminhos são diferente
Mas vão dar todos no mesmo lugar
O caminho do fogo é a água
Assim como o caminho do barco é o porto
O caminho do sangue é o chicote
Assim como o caminho do reto é o torto
O caminho do risco é o sucesso
Assim como o caminho do acaso é a sorte
O caminho da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte


Oswaldo Montenegro

Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho
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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fernando Pessoa










O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914


 
 

domingo, 5 de junho de 2011

Não importa se desejo ouro;
não sendo acessível, pela sua raridade,
contento-me com a prata.
Não importa se não vejo o sol
por ofuscar-me as vistas;
contento-me com a Lua.
Não importa a ausência do vento;
contento-me com a brisa.


NÃO ME IMPORTO COM QUE FOI;
CONTENTO-ME COM O QUE FICOU.

...