
08 de abril de 2008 Terça - feira às 23h: 45min.
Muitos dormiam um sono profundo, daqueles que foge totalmente da realidade, sem vestígio de mundo. Não digo que era o reino do silêncio, porque hospitais também quebram as regras, e vozes são ouvidas do corredor. E logo cessam. E os que não dormem, pensam, enquanto eu escrevo. Escrevo no escuro, não sigo as linhas, mal vejo os meus traços negros na brancura do papel. Ah! Neste momento me lembro de Brás Cubas, que escreveu com a tinta da melancolia lá do outro lado da vida. Curioso isso vir na minha memória agora. É pela solidão e a escuridão, faz lembrar-me coisas estranhas, mundo do além. Não que eu tenha medo, até gosto.Surgiu então uma voz suave ao corredor. Que me fez uma pergunta. Não era Pandora, porque eu não estava delirando. Adoro gatos. Até tenho um preto, só para quebrar a superstição de que só bruxas possuem gatos pretos e também pra ficar diferente do Sultão, num sei por que, mas penso que ele era branco. Quando na verdade deveria ser cor de hipopótamo ou não. Vai saber. Confiar em um defunto escritor, e depois num delírio é pedir muito. Mas pense. Como pode um homem frio, gostar de gatos? Que é um animal tão meigo.A voz era de um jovem, tinha lá seus 32 anos, que procurava por alguém, mas não sabia em que quarto estava. Mas queria vê-la._ A Mariana está aqui?Perguntou-me de pé à porta. Vigília também deu essa parada antes de entrar na alcova de Cubas. Bem, foram movidos pelo mesmo sentimento, mesma culpa. Mas antes que eu respondesse a jovem da cama ao lado disse:_ Sou eu._ Eu vim te ver. Fiquei sabendo que você estava aqui._ Quem te contou?_ Minha irmã._ Como entrou aqui?_ Marquei uma consulta só pra te ver._ você é louco!_ Como que foi isso?_ Ah! O motorista foi desviar do outro carro e me atropelou em frente ao colégio._ Está doendo?_ Não me dói nada.Eu apenas ouvia uma voz doce e ora sussurros... Enquanto sussurrava eu fingia escrever e quando falava eu redigia. Porque não é coisa que se vê todos os dias, aliás, primeira vez que vi. Mas eu não estava lá para escrever. Eu era acompanhante da enferma da cama ao lado, que dormia há horas.Então ele sentou-se aos pés da cama. E ela se aproximou mais. Um momento intenso. Pensei em retirar-me. Senti-me num mundo estranho novamente, um mundo diferente do primeiro de Brás Cubas. Nossa mente é constituída de mundos cada qual com a sua chave que são as situações do presente. Não deu tempo de me decidir. O segurança do hospital apareceu à porta. Num tom de voz alto que me fez voltar à realidade. Acendeu a luz e me perguntou:_ Cadê o moço que estava aqui?Minhas vistas se perderam no clarão e eu não disse nada. E ele voltou a perguntar. Eu abaixei a cabeça e continuei a escrever.Mariana então respondeu:_ Ele já foi.Desconfiado o segurança resolveu entrar no quarto e procurar pelo moço. Nem procurou nada, ao primeiro passo já o avistou atrás da porta._ Que isso amigo? O horário de visita acabou. Vamos você não pode ficar aqui._ Eu sei._ Então vamos que isso já está virando bagunça.E o segurança pegou o homem pelo braço e saíram. Mariana nada disse e eu escrevendo.O silêncio tomou conta. Mas desta vez ele incomodava. E eu o quebrei com uma pergunta._ O que é o Amor?_ Amiga! Ele é louco._ Então o Amor é a própria loucura._ Se é. Você nem imagina que loucura ele fez._ Todos nós estamos sujeitos a isso._ É que você não é dessas. Você não entendi._ Eu entendi o que você quis dizer._ Não, você não entendeu. Eu sou casada. Paulo foi meu namorado há seis anos. Separamos. Casei-me com outro. Mas não conseguimos ficar separados. Meu marido Nem imagina..._ Eu entendo.Ele nem imagina... Ou nem ela? Quem garante que o marido não saiba? E que espera um momento propício para acordá-la? Ou que se espelha na moeda pra continuar vivendo pensando ser um caminho sem maiores complicações. O que não é difícil encontrar nesse século. Porque para unir é mais fácil que para desatar, às vezes, envolve terceiros ou situações previstas. O confortável é continuar. É fazer vista grossa. Termo muito bem usado na área da educação...A frase de Mariana “é que você não é dessas” ficou na minha memória até que eu pudesse dissecá-la, na linguística seria estudar os arranjos e combinações e verdadeiramente é uma ótima construção. Mas que não se enquadra no meu perfil. Não que eu seja daquelas e nem dessas. Eu sou eu mesma...Mariana não era nenhuma Marcela isso eu posso afirmar. Vigília talvez. Mas não vem ao caso julgá-la.O silêncio tomou conta novamente. Mariana se perdeu nos seus pensamentos e eu na minha escrita. Não tinha nenhuma ideia fixa, ainda bem. Quero viver mais alguns anos.Eu escrevia da minha concepção de mundo e sobre Literatura. Tive tempo até de pensar nos meus amigos do MSN... Cada qual com sua personalidade, seu modo de expressar a Língua- Portuguesa. Umas palavras que até assusta-me, de tão ridículas... Pareciam vim de outra dimensão. Pensava em Paulo. No que se diz amor. O meu está num lugar ensolarado em baixo de uma árvore próximo ao riacho... Dorme tranquilamente.De repente meu celular. Mas quem será as 04h: 15 min.? Quem sabe que eu estou acordada há essas horas? Essa mudança rápida de um assunto para o outro faz lembrar-me da transição - da morte ao nascimento. Eu ainda não aprendi essa arte. Se bem que de onde estou não foge disso. Hospital lembra doença. Doença lembra morte. E a mensagem que recebi lembra hospital. Mas remete a vida. Era minha irmã dizendo que acabará de nascer minha nova sobrinha. Que excelente é a tecnologia. No lugar do Emplasto Brás Cubas deveria ter pensado em celular, aí quem sabe ele nem precisaria escrever suas memórias era só dá uma ligadinha. Veja. Minha irmã em outro estado brasileiro, muito distante de onde eu estava me contemplou com uma notícia dessas, em outras épocas já sabe o que aconteceria, dias e dias pra ser informada.A essa altura Mariana ativou o ID, está no sono REM, gravando no disco rígido do seu cérebro a visita e as palavras de amor que ouviu. E eu fico aqui a observar a minha enferma, que de vez enquando se mexe...
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Muitos dormiam um sono profundo, daqueles que foge totalmente da realidade, sem vestígio de mundo. Não digo que era o reino do silêncio, porque hospitais também quebram as regras, e vozes são ouvidas do corredor. E logo cessam. E os que não dormem, pensam, enquanto eu escrevo. Escrevo no escuro, não sigo as linhas, mal vejo os meus traços negros na brancura do papel. Ah! Neste momento me lembro de Brás Cubas, que escreveu com a tinta da melancolia lá do outro lado da vida. Curioso isso vir na minha memória agora. É pela solidão e a escuridão, faz lembrar-me coisas estranhas, mundo do além. Não que eu tenha medo, até gosto.Surgiu então uma voz suave ao corredor. Que me fez uma pergunta. Não era Pandora, porque eu não estava delirando. Adoro gatos. Até tenho um preto, só para quebrar a superstição de que só bruxas possuem gatos pretos e também pra ficar diferente do Sultão, num sei por que, mas penso que ele era branco. Quando na verdade deveria ser cor de hipopótamo ou não. Vai saber. Confiar em um defunto escritor, e depois num delírio é pedir muito. Mas pense. Como pode um homem frio, gostar de gatos? Que é um animal tão meigo.A voz era de um jovem, tinha lá seus 32 anos, que procurava por alguém, mas não sabia em que quarto estava. Mas queria vê-la._ A Mariana está aqui?Perguntou-me de pé à porta. Vigília também deu essa parada antes de entrar na alcova de Cubas. Bem, foram movidos pelo mesmo sentimento, mesma culpa. Mas antes que eu respondesse a jovem da cama ao lado disse:_ Sou eu._ Eu vim te ver. Fiquei sabendo que você estava aqui._ Quem te contou?_ Minha irmã._ Como entrou aqui?_ Marquei uma consulta só pra te ver._ você é louco!_ Como que foi isso?_ Ah! O motorista foi desviar do outro carro e me atropelou em frente ao colégio._ Está doendo?_ Não me dói nada.Eu apenas ouvia uma voz doce e ora sussurros... Enquanto sussurrava eu fingia escrever e quando falava eu redigia. Porque não é coisa que se vê todos os dias, aliás, primeira vez que vi. Mas eu não estava lá para escrever. Eu era acompanhante da enferma da cama ao lado, que dormia há horas.Então ele sentou-se aos pés da cama. E ela se aproximou mais. Um momento intenso. Pensei em retirar-me. Senti-me num mundo estranho novamente, um mundo diferente do primeiro de Brás Cubas. Nossa mente é constituída de mundos cada qual com a sua chave que são as situações do presente. Não deu tempo de me decidir. O segurança do hospital apareceu à porta. Num tom de voz alto que me fez voltar à realidade. Acendeu a luz e me perguntou:_ Cadê o moço que estava aqui?Minhas vistas se perderam no clarão e eu não disse nada. E ele voltou a perguntar. Eu abaixei a cabeça e continuei a escrever.Mariana então respondeu:_ Ele já foi.Desconfiado o segurança resolveu entrar no quarto e procurar pelo moço. Nem procurou nada, ao primeiro passo já o avistou atrás da porta._ Que isso amigo? O horário de visita acabou. Vamos você não pode ficar aqui._ Eu sei._ Então vamos que isso já está virando bagunça.E o segurança pegou o homem pelo braço e saíram. Mariana nada disse e eu escrevendo.O silêncio tomou conta. Mas desta vez ele incomodava. E eu o quebrei com uma pergunta._ O que é o Amor?_ Amiga! Ele é louco._ Então o Amor é a própria loucura._ Se é. Você nem imagina que loucura ele fez._ Todos nós estamos sujeitos a isso._ É que você não é dessas. Você não entendi._ Eu entendi o que você quis dizer._ Não, você não entendeu. Eu sou casada. Paulo foi meu namorado há seis anos. Separamos. Casei-me com outro. Mas não conseguimos ficar separados. Meu marido Nem imagina..._ Eu entendo.Ele nem imagina... Ou nem ela? Quem garante que o marido não saiba? E que espera um momento propício para acordá-la? Ou que se espelha na moeda pra continuar vivendo pensando ser um caminho sem maiores complicações. O que não é difícil encontrar nesse século. Porque para unir é mais fácil que para desatar, às vezes, envolve terceiros ou situações previstas. O confortável é continuar. É fazer vista grossa. Termo muito bem usado na área da educação...A frase de Mariana “é que você não é dessas” ficou na minha memória até que eu pudesse dissecá-la, na linguística seria estudar os arranjos e combinações e verdadeiramente é uma ótima construção. Mas que não se enquadra no meu perfil. Não que eu seja daquelas e nem dessas. Eu sou eu mesma...Mariana não era nenhuma Marcela isso eu posso afirmar. Vigília talvez. Mas não vem ao caso julgá-la.O silêncio tomou conta novamente. Mariana se perdeu nos seus pensamentos e eu na minha escrita. Não tinha nenhuma ideia fixa, ainda bem. Quero viver mais alguns anos.Eu escrevia da minha concepção de mundo e sobre Literatura. Tive tempo até de pensar nos meus amigos do MSN... Cada qual com sua personalidade, seu modo de expressar a Língua- Portuguesa. Umas palavras que até assusta-me, de tão ridículas... Pareciam vim de outra dimensão. Pensava em Paulo. No que se diz amor. O meu está num lugar ensolarado em baixo de uma árvore próximo ao riacho... Dorme tranquilamente.De repente meu celular. Mas quem será as 04h: 15 min.? Quem sabe que eu estou acordada há essas horas? Essa mudança rápida de um assunto para o outro faz lembrar-me da transição - da morte ao nascimento. Eu ainda não aprendi essa arte. Se bem que de onde estou não foge disso. Hospital lembra doença. Doença lembra morte. E a mensagem que recebi lembra hospital. Mas remete a vida. Era minha irmã dizendo que acabará de nascer minha nova sobrinha. Que excelente é a tecnologia. No lugar do Emplasto Brás Cubas deveria ter pensado em celular, aí quem sabe ele nem precisaria escrever suas memórias era só dá uma ligadinha. Veja. Minha irmã em outro estado brasileiro, muito distante de onde eu estava me contemplou com uma notícia dessas, em outras épocas já sabe o que aconteceria, dias e dias pra ser informada.A essa altura Mariana ativou o ID, está no sono REM, gravando no disco rígido do seu cérebro a visita e as palavras de amor que ouviu. E eu fico aqui a observar a minha enferma, que de vez enquando se mexe...
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