segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Colecionador de Estrelas


O menino de olhos tristes
descalçou os sapatos,
rasgou os contratos
e partiu.
Foi colecionar estrelas.
Algumas delas
deslizaram do escuro
e ofereceram-se encantadas;
outras, lívidas de espanto,
ficaram acuadas sem se entregar,
pois o menino de olhos tristes
destelhara os segredos da noite
e dominara os decretos do mar.
Ao perceber-se abarrotado de estrelas,
o menino içou as velas
e voltou.
Mas - surpreso - constatou
que sua coleção tinha debandado
e retornado a seu próprio território.
Ele olhou o céu novamente estrelado
e dormiu agradecido.
O menino de olhos tristes tinha aprendido
a beijar a vida e abraçar o transitório.


Flora Figueiredo



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domingo, 15 de maio de 2011

O Coleciona-dor

Quando o dia começa...
Inicia a rotina,
Não devo esquecer o dia da semana.
Mas que dia é hoje?
Hoje será um dia de ganhar palavras.
O que dirá as palavras?
E ontem?
Não sei que dia foi.
Mas foi o dia de juntas palavras.
Belas... Destrutivas... Comuns...
Ganhei poucas, não foi o suficiente,
Eram tão poucas que ficaram saltitando na mente o dia todo.
Poucas para concluir o meu texto,
Mas bastante para me fazer perder a noção do tempo.
Quando o dia termina...
Junto novas palavras...
Penso...
Durmo...
Acordo...
Quando o dia começa...
Inicia a rotina.
Hoje será um dia de ganhar palavras.
O que dirá as palavras?

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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Não posso pensar que o meu livro era a caixa de Pandora, havia algo mais que Pandora não guardou em sua caixa e eu guardei nas páginas viradas.

O menino de asas.

Voar é incerto. Depende do impulso das asas, da vontade de quem as possui, do tempo e da direção.
Ao relembrar páginas do livro senti-me livre, senti desejos de possuir asas, já que o menino as tinha. Mas não poderia eu pedir-lhe emprestadas,
porque asas não se emprestam, apenas ensina a possuí-las.
Não perguntei em que página eu conseguiria um par de asas, não sabia nem mesmo se o menino poderia me ensinar onde encontrá-las.
Ele possuía asas. Eu o via quando alçava pequenos voos.
Asas feridas...
Como não reclamava não pude virar as páginas em busca de uma esperança para voos mais altos.
Esperança havia na caixa de Pandora - mas faltará a essa página - a essa somente, mas não em outras...
Cada página relida eu confundia o menino e o livro.
O menino tinha asas, e no livro estavam minhas asas.
E eu tinha o desejo de possuí-las.
Sentia o vento assoprar...
E ao mesmo tempo eu sabia -
vida de borboleta é curta demais -
e quem perdeu conhece o caminho que trilhou...
Conclui a página e guardei o menino de asas dentro do livro,
Uma raridade que Pandora não possuí.

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domingo, 8 de maio de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

                 ________//_________

Parti porque não era amor, não era amizade, não era companherismo.
Não sei o que era.
Parti porque a saudade crescia a cada dia, mesmo em sua presença.
Era saudade?
Parti porque as palavras já não era de paz, não era de discórdia...
Eram apenas palavras.
Parti porque o barulho do silêncio incomodava-me.
Doia-me os ouvidos.
Era silêncio?
Parti porque minha presença não era sentida, não era vista.
Era presença?
Parti...
Metade foi e metade ficou.

 
Quando o medo vem

Quando o medo vem.
Fecho os olhos,
desligo o pensamento,
fujo do subjetivo.
Fecho o livro,
cubro-me,
cesso os movimentos.
Fecho a porta,
apago a luz,
e o silêncio faz-me companhia.

Quando o medo vem.
Fecho o pensamento,
cubro os olhos,
desligo os movimentos,
fujo da luz,
cesso o subjetivo,
E a porta faz-me companhia.

Quando o medo vem.
Apago o pensamento,
cubro o livro,
fujo da companhia,
Desligo a luz,
e acesso a porta.

Quando o medo vem.
Cessa o movimento dos olhos,
cubro a luz,
Fujo do pensamento,
E  o subjetivo faz-me companhia.

Quando o medo vem.
Desligo o pensamento,
Movimento os olhos
A luz cessa a porta,

Quando o medo vem.
Fujo dos movimentos,
da luz,
do pensamento
e da porta.

Quando o medo vem.
Torno-me ausênte.





domingo, 17 de abril de 2011

                               A BONECA DE PANO II



Tempos depois lembrou-se da boneca.
Saudade?
Não, a vida tem dessas coisas.
Recordar.
E a boneca estava lá, sorrindo como sempre,
Sob a terra vermelha do jardim.
Estava mais velha, com a fisionomia empobrecida,
Não pelo esquecimento, isso não lhe faz diferença.
Foi o tempo que passou e levou suas cores, seu brilho...
Passastes por alí um inseto, achando graça da boneca quis brincar...
Sorriu para ela, e ao vê-la em trapos pôs-se a caminhar;
Mas de insetos a boneta não quer se aproximar.
Entre Rosas ela se viu, poderia demostrar alegria,
Senão fosse de pano.
Ouve de longe o jardineiro contar feitos sobre flores.
Quem sabe ele não lhe devolve vida!
Cultivá-la, como cultiva as Rosas!
A raridade da rosa é ser bela e fera.
Bonecas não pssuem espinhos.
_ Antes fosse bela como outrora!
A noite os pingos a umedeceu.
Saudade?
Orvalho?
Ou chuva?




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sábado, 16 de abril de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011


Se Eu Pudesse



Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...


(Alberto Ceiro, in "O Guaradador de Rebanhos -
Poema XXI". Heterônimo de Fernando Pessoa)






quinta-feira, 14 de abril de 2011

                                                         
                                             ALÉM DO QUE VÊ





O nome tu pintastes de vermelho;
Tua essência coloristes de verde.
A inteligência de Branca;
De Rosa permanecia a calma que possuía.
Azul a cor de seu mundo;
Púrpura a sombra das palavras que dizia.
A cor amarela é que te fujia.
Tua Aura colorida se desfez;
E neutra tornastes mais uma vez.