quinta-feira, 18 de março de 2010

As palavras


Quantas pessoas já vomitaram palavras imundas em cima de mim...
Talvez elas pensem que meus ouvidos são vasos sanitários.
Pensam que tenho onde dar descarga a todas essas palavras.
E jogam esses excrementos tentando atingir o meu cérebro...
Pior que atingi.
Mas as reações não são a tão esperada.
Evito qualquer reação momentânea.
Ainda que as entendo. Porque não sou diferente disso.

As palavras quando presas me faz mal,
Dói o corpo e enjaula a alma,
Para o corpo e para a alma fixa na cabeça-mente.
Quanto mais penso nos montueiros de palavras
Que deveria ter dito e não disse, mais dói à cabeça.
Então ela desce ao coração.
E dói o peito, uma dor aguda e constante,
Completamente sufocante,

Torno-me uma escrava.
Por obedecer a ordens inconscientemente.
Ando, me comunico, vejo e sinto.
Mas, como um boneco de pano.
Uma Emilia antes da pílula.
Porque os meus sentimentos e minha alma
Estão nas palavras que não foram ditas
E que agora me aprisionam.

As palavras descem até as pernas, as costas, o estômago.
Tudo dói.
O alimento que como me faz mal.
Os vírus, bactérias, e outros corpos estranhos se alojam em mim.
As palavras servem de ponte para esses reinos.
E tudo por não ter dito o que acreditava ser verdade.
O que acreditava ser o correto a ser dito naquela hora.
E tinha que ser naquela hora.

Então as palavras mesmo agindo em meu corpo
Agem primeiro na alma.
Tira minha concentração e minha paz de espírito.
Os meus olhos não mais seguem em direção
Da fonte causadora por todos esses estragos.
Passam a evitar outros olhos.
Minha boca trava e minha mente reflete
Por frações de segundos todas as palavras vomitadas em mim...


De tanto sintomas e dores chega o momento inevitável.
Vomito todas as palavras digeridas...
De volta a mesma fonte de origem.
Só assim volto a dormir, respirar tranqüila, a não sentir dor
E a olhar as pessoas nos olhos.
Andréia

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