domingo, 29 de janeiro de 2012

... Havia uma sombra, grande, negra, tinha cheiro, cor e som da tranqüilidade.
Ao passar senti o perfume de flores comestíveis a minha alma, cheiro do alimento que nutri a imaginação.
O vento de leve balançava as folhas.
Feche os olhos.
Ouve?
São as ondas do mar.
É o som da sinapse, da lembrança...
Sente-se...
Sinto o vento lamber a minha pele, sussurrar-me segredos,
Histórias, de um tempo em que eu mesmo fui a protagonista.
O sol fazia questão de desenhar a negra nuvem no chão.
Onde tive a curiosidade de deixar uma marca.
Contornei a sombra, ansiosa pela contagem do tempo,
passa-me os segundos.
Se eu não atravessar a linha, não terei sobre mim o eclipse,
e o sol pode beliscar-me a pele.
Sigo a sombra, porque dela vem sensações novas.
Vem um caminho fresco e lento.
Sigo...
Sigo a sombra.
Até que surge a noite...
Não fique triste...
as marcas se apagam ao poucos...
Apego-me ao vento e sigo a caminhada.
Tudo é sombra, tudo é paz.


...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

BONECA DE PANO III

No sombrio da noite a boneca pergunta as rosas.
O que serão delas ao final, tão belas e perfumadas, sendo adoradas pelo jardineiro.
Mas as rosas...
Rosas são superiores,
Não falam, despertam desejos.
E por momentos a boneca teve inveja das rosas.
Deu pra maldizer de seus espinhos.
Espinhos sangram...
Mas por que uma boneca estaria preocupada com isso?
Sangue é vida e vida é o que ela não tem.
(A dor se manifesta no que pulsa)
Talvez um dia pensasse que teria.
Em outro lugar, em outro momento, na caixa de brinquedo,
Quem sabe? Se não fosse de pano...
O tempo se foi.
Não há rosas, nem jardineiro, a boneca também se foi.
Cumpre então o seu destino,
se decompôs em meio ao lixo que hoje se encontra.
Quem se lembra?
...
Era apenas um brinquedo substituível.
O tempo cura ou o tempo mata?


...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sem a noção de tempo você não teria sentido!


Sua vida não teria sentido,
nada "iria ser",
ou nada "já teria sido feito".


Simplesmente você estaria parada.
Não precisaria correr atrás de nada.
Mas você tem uma meta à cumprir!
Nem que seja básica,
pois sabe que seu tempo está passando,
e que você não é eterno!
No infinito, isento de tempo,
você não precisaria nem do básico,
porque não existiria morte.


A morte te faz ter noção de tempo!
A morte das coisas nos dá uma noção de tempo.
Logo você conclui que nada é eterno e que tudo tem um
fim.


O tempo existe pra cada ser,
inanimado, ou animado,
pois ambos têm um fim.
Logo vemos a mortalidade da vida,
e daí surge a consciência de tempo:
fui, sou, serei e fim!
"Morte"!


O tempo é o único eterno!
Suas criaturas se prendem nele ao nascer
e se desprendem ao morrer!
Mas ele permanece,
pra que tudo comece outra vez,
pra outra geração de seres inanimados e animados.


O tempo é a consciência de vida e morte.
Temos consciência de vida, por causa da morte,
pois percebemos a distinção das duas, que é:
aqui estou e logo desapareço!
O desaparecer é a morte
e a consciência de estar aqui é a vida.


O espaço é isso tudo que está aqui,
é a própria matéria.
Mas o espaço morre!
O espaço se prende no tempo e depois se desprende.
A mortalidade do espaço nos faz ter consciência da morte.
O espaço é mutável, diferentemente do tempo.
O tempo é o mesmo eternamente.
Usamos os segundos para contá-lo, é uma maneira.
Se a consciência dos segundos desaparecesse,
a consciência de tempo permaneceria a mesma.


Os seres continuariam aparecendo e desaparecendo eternamente.
O tempo é o mesmo em que Jesus foi crucificado,
o mesmo que te conheci,
o mesmo que existirá sempre.
A contagem que fazemos do tempo, por segundos,
e a contagem dos fatos que ocorrem no tempo é que mudam, que avançam.


Mas o tempo permanece.




Autor: Filipe




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domingo, 1 de janeiro de 2012

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928


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sábado, 31 de dezembro de 2011









Flowers

                                                           Demorou mas abriu...

                                                            Muitos beijos!!!


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A UM SER PEQUENININHO


Querido amiguinho.

Sei que jamais saberá o quanto me desafiou
com sua pouca vivência.

Mas confesso que a cada dia eu o observava.
Aprendi a fazer leitura dos seus olhos, movimentos, voz...
Aprendi a identificar as várias faces que você chegava até mim.
Aprendi a aceitar ou a negar as suas provocações.

Pode pensar que um ser tão pequeno não provoque,
mas provoca e muito, tenta desequilibrar, irritar, brigar...
Não demorou muito para que eu me apaixonasse
por esses olhinhos grandes, por seu raciocínio rápido e “torto”.

Mas confesso que em muitos momentos tive que buscar soluções
dentro de mim, quando ainda não as tinham.
E por revirar meus pensamentos em busca de resolver os seus
acabei me conhecendo um pouco mais.

Além de eu ter que entender você, eu tinha que me entender também.
Porque era de mim que saiam as palavras e os gestos que chegavam a ti.
E para que chegassem do jeito que eu desejava
tive que ter autocontrole, pois foi esse o meu desafio.
Mostrar para você que existe outro mundo diferente do seu,
mas da minha maneira e não da sua.

Sei que conseguidos.
Chegou ao fim 2011.
Mas irei me lembrar dos vários “pensamentos tortos” que colhi.
Espero que não pense mais que a água sai da parede, porque
Na parede há um encanamento, que não é visível aos seus olhinhos.
Foi engraçado conhecer esse seu mundo de criança.

Às vezes, buscamos mestres e doutores para nos ensinar,
Mas realmente aprendemos quando tocam nas emoções,
e para despertar as emoções de alguém não é preciso diploma.
É preciso Amor.

Abraço para você pequeno D.V.


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domingo, 25 de dezembro de 2011




Dever de Sonhar


Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Fernando Pessoa


sábado, 3 de dezembro de 2011